Hiatos urbanos: processos clínicos na geografia urbana

da disciplina Corpo, Arte e Saúde, coordenação Flávia Liberman (UNIFESP)

“Educar-se para captar a diferença e a repetição para construir outras dramaturgias” Regina Favre, 2016

Em nossa experiência cotidiana, circulamos por espaços públicos e/ou privados para efetuar nossa ação no mundo, transformando-o por nosso trabalho material e imaterial. Nos deslocamos do quarto para outros ambientes de nossa residência, nos preparando neste campo privado para transitar pelas ruas e avenidas, pelo mundo que acontece do lado de fora destas paredes, e encontramo-nos em espaços coletivos nos quais trabalhamos, cuidamos, lecionamos, pesquisamos, criamos em competição ou em cooperação com estes outros que compõem nosso mundo.

Deparamos com pessoas que enfrentam alguma restrição que lhes impede essa circulação, de participar dos espaços públicos ou de se sentir pertencente a uma coletividade. Esta restrição, que pode ser de ordem física ou psíquica, insere-se na história dessa pessoa como uma marca, um estigma que diminui suas possibilidades em compor com o mundo, produzindo um sofrimento agudo ou crônico pelo desenraizamento e o isolamento sentido. Há um traço deste capitalismo que passa a funcionar em rede que intensifica esse processo: diante de novas formas de exploração e de exclusão, um novo medo foi gerado, o da desconexão das redes físicas, sociais e de sentido (PELBART, 2009), isto implica que ronda sobre qualquer um de nós a possibilidade de ser ejetado aos territórios da miséria, da loucura e até mesmo da morte, e que, como clínicos, isto coloca novos desafios às práticas em saúde mental.

Como resistir a esse funcionamento conexionista do capitalismo que cada vez mais coloniza a linguagem, o pensamento, a afetividade e o sonho? Como enfrentar o medo da desconexão, da perda de sentido e da desagregação de si, sustentando modos de vida afirmativos e singulares? Se por um lado pode-se dizer que o comum, que a inteligência coletiva vêm sendo expropriada para o uso de alguns, por outro uma das questões do contemporâneo é seu ofuscamento, isto é, já não o reconhecemos como tal, como de uso de todos e para todos. Enquanto trabalhador de saúde mental, seja minha atuação nos espaços públicos ou particulares, sou convocado a constituir um ethos em relação a minhas práticas e estabelecer uma resistência nos planos da sensibilidade e do pensamento, um certo cuidado de si para poder acompanhar o sofrimento que se instala no outro.

Ao lado de distintos campos de saberes que buscam uma intervenção nestes impedimentos, o acompanhamento terapêutico constitui-se como um dispositivo clínico em rede, no qual o acompanhante capta e se coloca a serviço da tessitura desejante do acompanhado na ocupação e geração de territórios existenciais em seus trânsitos pelos espaços públicos e privados, interferindo em seu cotidiano e promovendo ganhos de autonomia, entendida como a possibilidade de se amparar em mais relações, conter a si mesmo e experienciar variações em sua potência.

Tal dispositivo alia-se à prática cartográfica, entendida não só como a análise do desejo nas paisagens psicossociais, como também uma disposição de seu praticante em afirmar uma potência da própria vida, de colocar em conexão materiais das mais distintas origens para dar passagem ao processo em curso. Ao circular pela cidade, o acompanhante contém em si afecções de seu encontro com o corpo e a fala do acompanhado, escutando na cidade aquilo que vem do acompanhado (PORTO, 2015). Destas afecções, emerge uma fala dirigida ao acompanhado, que visa mobilizar a anestesia instalada por sua marca, descongelando suas forças, sua percepção, sua potência em produzir sensações de mundo.

Ao fazer junto, o acompanhante propicia a gestação de experiências de si inéditas ao acompanhado, num processo corpo a corpo na produção de outras sociabilidades não-normalizadoras. Amparado, o sujeito é mais capaz de experimentar ações no mundo, de continuamente se adaptar e problematizar os ambientes que produz e que faz parte, podendo viver o acontecimento de maneira plena (FAVRE, 2016). Pelo pensamento, gesto, interpretação ou ação, acompanhante e acompanhado forjam na experiência do encontro e de suas dissonâncias um projeto que, minimamente, seu desejo e singularidade possam ganhar expressão.

 

Bibliografia

PELBART, P. Vida Capital: ensaios de biopolítica. São Paulo: Iluminuras, 2009

PORTO, M. Acompanhamento Terapêutico. (Coleção Clínica Psicanalítica / dirigida por Flávio Carvalho Ferraz). São Paulo: Casa do Psicólogo, 2015

FAVRE, R. Captura dos corpos, caminhar e autonomia: imagens, conversas e práticas de si. Palestra do ciclo B A S E: encontros e atravessamentos entre corpo, tempo e espaço, organizado por Edith Derdyk no Centro de Pesquisa e Formação Sesc São Paulo, 2016

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